Janeiro, domingo à noite, uma mensagem surge no Facebook: «Hello! Tudo bem?».

Apesar de serem amigos nesta rede, ela não o conhecia. Vai ver o perfil dele e por um conjunto de variáveis e decisões de novo ano, decide responder: «Sim. Obrigada».

Segunda-feira de manhã tem uma nova mensagem a dizer: «Bom dia!» ao que, ainda perplexa, responde por educação: «Bom dia!».

A partir desse momento, e por 51 dias, diariamente as conversas se iniciavam com um bom dia e se prolongavam durante todo o dia, com partilhas de momentos, pensamentos, fotos, emoções sentidas, sofrimentos, problemas e muitos beijos. Especificamente, às 3 semanas, por iniciativa dele, o Facebook deu lugar a uma troca de números de telemóvel que veio dar azo a mensagens por Whatsapp e chamadas telefónicas frequentes.

A vida de ambos estava a ser partilhada, os seus passados, a vivência atual e os seus sonhos futuros, com uma ternura profunda.

Ela pergunta-lhe: «Quais são os teus sonhos?». Ao que ele responde: «Ajudar os outros e ter uma família». Curioso… a resolução de ano novo dela foi disponibilizar-se a conhecer pessoas. Queria encontrar um companheiro de partilha de vida com quem tivesse um filho. Ficou alerta para ele, pois a sua filosofia é: «Quando dois uns sentem amor puro, unem-se e dão origem ao 3!».

À descoberta do amor

Ambos na casa dos 40, disponíveis, com caminhos diferentes, mas objetivos de vida comuns, uma empatia natural e assunto diário sem se conhecerem. No mínimo algo com potencial!

Percebem semelhanças, vivências em comum, compreendem-se e aceitam-se, sendo, por momentos, estímulo e amparo um do outro. Um dia, ele perguntou se ela era feliz, ao que respondeu “não”, porque queria partilhar a vida com alguém. Ao devolver a pergunta, ele responde “não”, pelo mesmo motivo. Com tanta oxitocina, ela começou a dizer que gostava dele e, com algum custo inicial, ele fez o mesmo. Diziam que tinham saudades um do outro. Combinavam fazer análises laboratoriais juntos, experimentar comidas, ele idealizou os pormenores do primeiro encontro sexual, ela fantasiava com o potencial de ambos juntos. Começaram a criar sonhos e expetativas do desejado encontro e de como poderia ser o futuro deles. Ambos motivados, ela para os afetos, ele para criar alternativas à distância. Falavam do que cada um poderia trazer à vida um do outro. Escutavam-se! Entendiam-se! Riam!

Os sinais de que algo não está bem

De vez em quando, surgiam dúvidas, inseguranças, impulsos que a faziam recuar, mas que ele, amavelmente, sempre sustentou e acalmou. Mas, ela começou a sentir momentos de distância e falta de afeto, queria mais, porque sentia mais. Ele não entendia, e remetia para o facto de não se conhecerem. Estes momentos foram-se repetindo. Noutra altura, a frieza dele voltava a incomodá-la e a magoá-la. Mas, ele estava bem assim, não sentia o que ela sentia, nem entendia. A reciprocidade afetiva estava a falhar!

Ela sentia que algo se passava!

A dor da perda

Dois dias antes do desejado encontro, após outro momento de frieza e distanciamento dele, a que ela reagiu com agressividade, ele afastou-se, deixou de dar o habitual bom dia, desapareceu. Ela pensou que ele iria ao seu encontro no aeroporto… mas, não apareceu! A dor de perda era forte. Tentou conversar para perceber, ligou, enviou mensagens a propor um encontro de 15 minutos, só para que lhe fosse permitido olhar nos olhos e, eventualmente, contornar o rosto dele com a sua mão. Mas, nunca houve disponibilidade da parte dele.

Acabou o que nunca começou!

Após algum tempo de dor e questionamento, ela tomou consciência de que é possível gostar de alguém sem ver e sem tocar. Mais, é possível continuar a gostar verdadeiramente, aceitando a liberdade de decisão do outro, mesmo sem a compreender. Este homem, sem saber, ofereceu uma nova vivência a esta mulher, fazendo-a sentir com gratidão, que a energia cardíaca não precisa de se manifestar, ela apenas existe no amor e aceitação incondicional do outro, que perdurará por toda a sua vida!

Como lidar com as interações humanas na era digital?

A revolução digital mudou o modo como as pessoas se relacionam, tornando-se diferente do do mundo analógico. Esta transformação acaba por criar novas necessidades, alterando sólidos paradigmas. A informação torna-se cada vez menos ligada ao objeto físico que contém afeto e mais focada na reação imediata.

Como tornar sólida e recheada de afetos a interação com o outro, num tempo de smartphones como extensão do corpo? Conversar por Whatsapp, momentos de carinho através de fotos no Instagram e declarações amorosas publicadas no Facebook. Zygmunt Bauman, nos seus livros sobre a liquidez da vida moderna, refere que tudo é fluido, escorre pelas mãos como água corrente: essa é a representação dos relacionamentos atuais, descartáveis, fantasiosos, superficiais e desprovidos de inteligência psicoemocional.

O caso apresentado, de dois adultos maduros com objetivos comuns, que tiveram a sorte de se encontrar nas redes sociais, e que desenvolvem conscientemente uma interação diária próxima e íntima, com objetivos definidos e organizados, remete-nos para uma equidade de afetos naturais evolutivos ótimos, mas com posicionamentos finais opostos, por variáveis pessoais, eventualmente relacionadas com vivências passadas. Para ele, no momento final, foi mais fácil fugir do que sentir; a recusa da aproximação real imperou, por imensas possíveis razões. Para ela, toda a interação foi real, associada a uma ilusão ingénua e algum endeusamento do outro. Foi vivenciada uma interação humana, afinal, vazia e amorfa, onde não houve troca de vivências reais propositadamente, pois, na verdade, ninguém desaparece da vida de outra pessoa se as palavras ditas forem verdades sentidas. A entrega dele não terá sido a dela, apesar das palavras vãs ditas.

É importante saber escutar!

Sempre que se alerta o outro para a sensação de falta de afeto, é necessário saber escutar, perceber o que exatamente origina essa sensação. Olhar na totalidade os dois: a posição, as expetativas, as carências, as limitações. A resposta madura é um compromisso de encontro o mais imediato possível, pois é natural que a presença seja a alavanca promotora de empoderamento de uma futura relação, e, até lá, ter coragem e força para suster anseios, dificuldades e medos um do outro, não por obrigação, mas por opção de escolher querer conhecer, estar, sentir e olhar o outro. Nada pior que uma idealização não realizada e um término virtual.

Atualmente, deixar passar a oportunidade de ser importante afetivamente para alguém que nos escolheu e nós a ele(a), é uma opção baseada num vazio psicoafetivo e empático. Muitas vezes, estas pessoas mantêm várias ligações da mesma natureza, sem que, na verdade, estejam emocionalmente envolvidas em alguma, e portanto, não há criação de vínculos, logo, o outro torna-se acessório, descartável e temporal, perante um pedido de aprofundamento e estreitamento de laços afetivos. Uma triste cegueira de interações.

Um dos maiores desafios humanos é a capacidade de doação ao outro, através da aceitação, do respeito, da solidariedade, da empatia, da amizade, da verdade e do amor. Ao invés da rejeição e do descartar.

Será possível restabelecer uma ordem humana das relações? Possuímos condições de produzir e inserir a tecnologia nos relacionamentos? Em alguns contextos diminui distâncias, mas poderá ser fonte de criatividade real, resgatando a nossa forma de nos relacionar, escutar, olhar nos olhos do outro, preservando a nossa essência humana?

Nesta Nova Era, não somos metade da laranja, à espera de outra metade para estarmos completos. Somos sim, a laranja inteira que escolhe cruzar-se com outra laranja inteira, de modo a partilhar diferenças, similaridades e solitudes de forma construtiva. Esta é a verdadeira e real conceção de união: dois seres que se sentem completos em Si e que se juntam, não porque precisam um do outro, mas sim, porque desejam PARTILHAR A SUA VIDA um com o outro, como testemunhas atentas. O que significa que, enquanto estiverem juntos, irão usufruir verdadeiramente um do outro. Mas, se chegar a altura de cada um seguir o seu caminho, irão aceitar com a mesma alegria, sabendo que viveram o que tinham de viver, que aprenderam o que havia a ser aprendido, e que, são seres mais ricos e plenos! E só por isso, sentem alegria em deixar o outro seguir o seu caminho em busca da sua felicidade. Que foi o que aconteceu neste caso, após uma escolha de partilha de vida falhada, vivencia a dor e transforma-a na essência que sempre sentiu, AFETO PURO E VERDADEIRO por ele.

Não tenhamos dúvidas, os relacionamentos da Nova Era serão medidos pelo quanto crescemos e amadurecemos através da interação com o outro. Pelo quanto aprendemos com a presença dele(a) na nossa vida e o quão gratos nos sentimos por saber que o outro existe no mesmo tempo e espaço de vida que o nosso, e é feliz.

Uma psicologia dos afetos maravilhosamente bela para quem é capaz de a atingir/sentir!

 

Por Marta Reis 

Psicóloga Clínica, Sexóloga e Investigadora FMH/ULisboa

Por Margarida Seco de Oliveira

Psicóloga Clínica, Psiconeuroacupunctora, Docente do Instituto de Psiconeuroacupunctura

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