Viajar é quebrar paradigmas, redescobrir-se, conhecer novas culturas, mas também atravessar mares e continentes, conhecer outros costumes e outras formas de estar na vida. É renovar energias! Viajar é muito bom e isso quase todos concordam.

O que proponho neste artigo é que me acompanhe numa viagem única até Guiné-Bissau, que sinta cada emoção como se fosse sua e que desperte o seu espírito viajante.

Boa viagem!

Guiné-Bissau 

Duro e difícil! 

Foto cedida pelo autor

Conceber em poucas palavras um título para uma odisseia em solo africano é tempo esbanjado. Não vale a pena levar a lição estudada ou, até mesmo, atulharmo-nos de cábulas. Neste continente respira-se a cada segundo o descortinar de inopinadas situações e, por isso mesmo, cada jornada é um mistério. Esta aventura foi como imergir num livro onde, letra após letra, somos usados como tinta numa folha pela mão de um escritor. Cada letra era um segredo. Cada página era uma confidência, e a cada folhear, a história poderia mudar de rumo, sem qualquer cabimento iminente.

Letra após letra, a nossa pequena odisseia teve os seus alicerces na cidade de Dacar, no Senegal. Após semana e meia a pedalar contra tudo e contra todos, desde o confragoso calor ao peso dos alforges, tínhamos a Guiné-Bissau diante de nós. Finalmente, o desembrulhar de um sonho que, aos poucos, começava a ganhar forma. Mas, a chegada à fronteira era apenas o limiar de uma epopeia, pautada por alguns imprevistos e surpresas. O objetivo era chegar a Bissau e oferecer a bicicleta a uma criança. Tal era o desfastio por termos chegado a Guiné-Bissau, que nada nos conseguia parar, nem mesmo o obstinado calor calcinante e férvido. Estradas planas, com paisagens tracejadas de palmeiras, davam-nos boleia nos primeiros quilómetros. Sentíamo-nos imbatíveis. Porém, essa invencibilidade fora apenas uma serventia efémera para o que viria a seguir.

Foto cedida pelo autor

Com o passar do tempo, as tais estradas planas converteram-se rapidamente em imutáveis subias e descidas. Quilómetros a fio num sobe e desce, onde a locomoção ganhava uma certa rotina indesejada. Cinco longos minutos a pedalar uma subida, com rostos estampados de sofrimento, para depois, em apenas alguns segundos, descermos novamente até ao fundo, embalados pela força da gravidade. Não foi preciso muito tempo para rogarmos as primeiras pragas a tudo o que nos rodeava. As inúmeras subidas eram um problema. O calor tórrido e abafado era outro obstáculo. O peso que carregávamos na bicicleta era somente mais uma dificuldade e, para completar, este gigantesco puzzle entranhado de dilemas, a falta de água e comida era o ponto fulcral de todos estes embaraços. Só passado algum tempo é que conseguimos encontrar uma pequena barraca numa aldeia. Água, nem vê-la. Felizmente, tinham latas de Coca-Cola à venda, o que naquele momento soava a ouro. A falta de eletricidade ainda é uma realidade bem patente neste país e, por isso mesmo, os nossos refrescos não eram realmente fidedignos refrescos. Mas, na falta de melhor, a maldita Coca-Cola quente, que mais sabia a xarope, era um elixir para as nossas papilas gustativas. Passado algum tempo, brotou a primeira evidência de que ‘levar a lição estudada’ para este continente não serve de nada.

Estávamos em São Domingos e queríamos apanhar um barco até Cacheu, para não contornar o rio. Chegámos à margem do tal rio e não havia vestígios de qualquer barco ou pescador. Questionámos alguns nativos e percebemos que seria impossível transpor o rio. Talvez me tenha precipitado ao pronunciar a palavra impossível. Possível até era, mas dia e hora exata, para tão desejada travessia, pairavam no ar como um segredo guardado a sete chaves. Rostos com enormes pontos de interrogação e nenhuma certeza fizeram com que seguíssemos viagem, mudando os nossos planos iniciais. Sendo assim, teríamos de pedalar ainda mais para chegar à tão desejada capital guineense.

 

Foto cedida pelo autor

Malgrado este percalço, após alguns quilómetros, encontrámos, finalmente, comida numa pequena povoação. Duas sandes e dois sumos por uns míseros 50 cêntimos. A pureza e sinceridade de quem nos tinha vendido aquele sustento eram incontornáveis. Agradecemos aos deuses por este manjar no meio do nada e prosseguimos o nosso desfile em duas rodas, entre paisagens áridas e desérticas.

 

Por Rui Daniel Silva

Professor de piano

Líder de viagens de aventura na empresa The Wanderlust e colunista na revista Diariesof

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