«Sempre fui a típica menina bem comportada e tímida que seguia a moral e bons costumes da comunidade onde me inseria. Aos 16 anos, iniciei um namoro que durou 8 anos. Um amor puro, fiel, de entrega, típico da ingenuidade latente da adolescência, mas igualmente autodestrutivo, com consumos de drogas e toda a parafernália de comportamentos subjacentes a estes meios.

Acreditar que ele poderia mudar! Acreditar que, por nós, deixaria os consumos! Sempre que caía, eu estava lá, cheia de amor e esperança. Tantos anos da minha vida… os melhores, passados nestas vivências que continuam ainda tão presentes dentro de mim! Dói! Provoca revolta! Raiva! Frustração! Nos últimos tempos deparei-me com aquela fase de eventual ‘adolescência tardia’. Cansei de ser uma menina bem comportada, seguindo a moral e os bons costumes, após tanto tempo fiel ao amor perdido, que quase me perdi com ele e por ele deixei de viver. Fui começando, devagar, a perder a TIMIDEZ. Sim, sou tímida! De repente, dou por mim, sem nenhum pudor a meter conversa em chats com homens casados ou comprometidos. Finalidade: sexo, nada mais! Não me queria envolver emocionalmente! Sempre me achei um ‘patinho feio’, mas esta ideia tem vindo a mudar, comecei a ver-me com outros olhos, tal é o feedback que recebo destes encontros ocasionais. A adrenalina, a sensação de pisar o risco, e saber que não é correto, mas que se ‘lixe’, vou aproveitar, alguém já me fez o mesmo!

Como se processam estes encontros sexuais?

Então quem vais ser hoje? Vou à lista de contactos. Para não ficar ‘agarrada’ tenho que ir saltando aqui e ali, até porque todos eles têm qualidades diferentes, o ideal não existe, mas se pudesse juntar as peças de alguns, fazia o homem da minha vida!

Eles, sempre disponíveis ao meu contacto. A adorar? Sim, sabe-me muito bem!

Quando são muito queridos comigo está na altura de fugir para não criar laços emocionais. Pretendo assumir um papel ‘dito masculino’ e, às vezes, dou por mim no meio da relação sexual, sem me lembrar do nome do parceiro. Os papéis invertem-se? Temos pena!

Quando me permito olhar intensamente para mim, percebo exatamente o que estou a fazer, e a dor e vazio que me traz. Não sou ‘homem’, sou mulher e quero afeto e amor puro! Mas, assim é mais seguro e adequado aos tempos que vivemos.»

Reflexão:

Uma questão que pode ser imediatamente colocada após lermos este testemunho é: sexo casual vale a pena?

Se, para muitas mulheres, partilhar a sua vida com alguém especial é importante, para outras não. A multiplicidade de fatores e variáveis é enorme, mas mulheres sem relacionamentos assumidos estão a aumentar entre nós, tal como as mulheres que optam por não casar e que não invejam a maternidade. Algumas pesquisas sugerem que as mulheres que procuram sexo casual podem ter medo dos relacionamentos. Mas, é preciso distinguir a situação de nunca desejar um relacionamento sério e a situação de passar uma temporada dedicada a nós próprios. Porque pode ser apenas uma fase.

Por outro lado, devemos, ainda, ter em conta o seguinte:

  • O aumento do número de mulheres sem uma relação assumida é uma realidade que reflete mudanças culturais com implicações psicológicas. Isto é, o compromisso não desapareceu. A diferença é que, no passado, o compromisso era regulado pela sociedade e, uma vez assumido, esse compromisso era para sempre. Hoje, somos nós próprios a assumi-lo e esta mudança levanta sérias dificuldades numa sociedade que, no momento da escolha, não consegue decidir e, então, adota a estratégia de não compromisso.
  • Pode ser, por outro lado, entendido como uma fuga à rotina. Ou seja, nem todas as mulheres procuram um companheiro para a vida e, para muitas, o sexo desprovido de compromisso ou qualquer cobrança é uma forma de não cair no envolvimento e fugir à tão temida rotina, comum numa vida a dois.

O testemunho desta mulher prova isso mesmo. As relações de longa duração têm tendência para entrar na rotina, ao contrário dos encontros esporádicos, onde se mantém o interesse, o jogo de sedução e se valoriza apenas a parte ‘boa’, ao invés de toda a panóplia de «obrigações associadas a uma vida partilhada». As emoções são vividas muito mais intensamente. Essa vivência mais intensa acaba por se manifestar sem levar a pessoa a sentir o peso de ter que encarar a possibilidade do(a) companheiro(a) de uma noite ter uma presença permanente na sua vida. Contudo, nem todas estão preparadas para lidar com os sentimentos que podem surgir depois de uma noite de sexo. É importante estar segura do que pretende e ter a certeza que depois é capaz de não esperar mais daquela relação.

Quem procura sexo sem compromisso?

São mulheres independentes, muito mais amadurecidas em termos de personalidade por experiências relacionais negativas e que, por isso, não se permitem seguir um trilho cultural de submissão à regra como no passado. Mas, ainda não suficientemente maduras, porque ainda não foram capazes de formar a sua identidade afetiva sexual, ainda estão nessa descoberta.

Um risco chamado paixão

«Por vezes, é difícil separar as coisas e evitar o envolvimento, porque existe uma série de sentimentos e pensamentos que surgem e que nem sempre se controlam», constata a sexóloga Marta Reis. E «racionalizar demasiado a relação, esperar mais, pode ser sinal de que procuramos mais do que sexo», alerta.

 

Por Marta Reis 

Psicóloga Clínica, Sexóloga e Investigadora FMH/ULisboa

Por Margarida Seco de Oliveira

Psicóloga Clínica, Psiconeuroacupunctora, Docente do Instituto de Psiconeuroacupunctura

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