O pequeno-almoço dos seus filhos não varia muito, verdade? Nas refeições tenta dar-lhes vegetais mas torcem o nariz e o pedido é uma lasanha pré-cozinhada, carregada de sal e aditivos? Estivemos à conversa com a nutricionista Ágata Roquette, que nos deu dicas simples e práticas para melhorar a alimentação das crianças, revelou quais os alimentos a consumir e a evitar, como deve ser o dia a dia alimentar dos mais pequenos e quais as suas necessidades nutricionais. Falou, ainda, do seu mais recente livro A Comida dos Miúdos Cá de Casa.

No novo livro dá vários conselhos para melhorar a alimentação das crianças, de maneira a que consigam ter prazer naquilo que comem…

Sim, é verdade. O livro tem como objetivo melhorar a alimentação das crianças e adolescentes, mas de maneira a que consigam ter prazer naquilo que comem. Melhorei alguns pratos que este grupo tipicamente gosta, como pizzas, lasanhas, nuggets , etc., e dou uma ajuda aos pais na composição das lancheiras, usando as receitas que aqui proponho.

Qual o papel dos pais na qualidade da alimentação dos seus filhos?

O papel da alimentação nas crianças é de inteira responsabilidade dos pais, pois elas comem aquilo que lhes pusermos à frente. Em relação aos adolescentes é mais complicado, por isso, peço que, pelo menos, em casa, comam sempre bem já que fora de casa é difícil dominá-los, pois a tendência para almoços fast-food e lanches cheios de açúcar é grande. Gostaria que numa fase inicial, tanto os pais como o adolescente, fizessem um esforço para levarem este género de lanches para a escola e que percebessem que ir à cantina almoçar, ou a um restaurante perto da escola com os típicos pratos do dia, será sempre melhor do que ir a um café ou a um supermercado comprar ‘porcarias’.

Quais os alimentos a consumir e a evitar?

O grande erro está no consumo exagerado de ‘empacotados’ (bolachas, batatas fritas de pacote, cereais, pão de forma) e muitas coisas novas que foram aparecendo para os miúdos, mas tudo industrializado, cheio de corantes e conservantes. Esta é a minha grande preocupação, a de eles conseguirem substituir tudo isto por alimentos nutritivos, saciantes e saborosos. Quanto aos alimentos a consumir, aconselho o aumento de frutas e vegetais, mesmo que tenham de ser disfarçados em sopas, pizzas, lasanhas, sumos e batidos. O importante é ensiná-los a comer estes alimentos seja de que forma for.

Algumas crianças podem apresentar resistência a uma dieta equilibrada… O que fazer nesta situação?

Em relação às refeições não têm de ser esquisitos, pois tal como proponho, em termos de prato, é possível comer quase de tudo, desde que a pessoa varie. Os únicos alimentos a evitar são os fritos (panados, batatas fritas, comida pré-feita) e as crianças, gostando destas coisas, porque se habituaram, têm sempre o fim de semana para fazer umas ‘asneirinhas’. Para os que têm dificuldade em comer fruta e vegetais, o que não deveriam ter, caso tivessem sido habituados desde pequenos, podem começar por introduzi-los em sopas, sumos e batidos ou ‘escondê-los’ nalguns pratos, tal como proponho no meu livro.

Também tem em casa a batalha por uma alimentação mais equilibrada. Pode partilhar connosco as receitas da sua cozinha e que vão fazer as delícias dos mais pequenos?

Nuggets, douradinhos e filetes feitos com sementes de linhaça e, em vez de fritos, vão ao forno. Pizza e lasanha saudável. Muitos bolos , muffins, queques, bolachas e panquecas, mas usando ingredientes saudáveis e os açúcares só da fruta.

«A minha sugestão é sempre pôr na lancheira uma peça de fruta, que é rápido, um iogurte ou um pacotinho de leite ou bebida vegetal»

Muitas crianças são ‘viciadas’ em doces e fast-food. O que isso pode acarretar no futuro?

Muitos problemas, sobretudo doenças cardiovasculares, diabetes e cancro. Em idades mais jovens, e não se preocupando eles com estas doenças, o que pode afetá-los mais é a obesidade, acompanhada de perda de autoestima, depressão, bullying, o que pode desencadear em distúrbios do comportamento alimentar (anorexia, bulimia, etc.).

Na correria do dia a dia muitos pais dizem ter dificuldade para preparar a lancheira dos filhos. Qual é a sua sugestão?

A minha sugestão é sempre pôr na lancheira uma peça de fruta, que é rápido, um iogurte ou um pacotinho de leite ou bebida vegetal e, rapidamente, fazer um pão com as variantes que proponho. Isto é rápido. Muito rápido também, se tiverem um bolo já feito, é cortar uma fatia e pôr dentro da lancheira com a fruta e lácteo.

A primeira refeição do dia é considerada a mais importante. Que alimentos deve conter um pequeno-almoço nutritivo?

Deve conter sempre hidratos de carbono (do pão, de aveia), alguma fonte de gordura ou proteína (azeite no pão, queijo, fiambre), leite/iogurte ou bebida vegetal. Se for possível incluir uma peça de fruta, ótimo, caso contrário, não é grave, porque comem fruta durante o dia.

Uma alimentação correta não invalida a ingestão ocasional dos ditos alimentos ‘apetecíveis e pouco saudáveis’?

O que tento incutir nos meus filhos, e eles já interiorizaram perfeitamente, é que durante a semana não comem ‘porcarias’ (claro que ainda são pequenos e não levam dinheiro para a escola e isso ajuda) mas, ao fim de semana, podem sempre comer outras coisas. Em festas de anos sei que comem muitas batatas fritas, se forem ao cinema, claro que comem pipocas e se jantarmos fora sei que o mais novo quer sempre bitoque por causa das batatas e come, claro. O mais velho adora peixe e, muitas vezes, pede. Só acho que não são muito gulosos até agora. E isto tudo seria perfeito durante a semana se os avós (maternos e paternos), que os vão buscar às terças e quartas, não estragassem um bocadinho este esquema!

Para as crianças que praticam desporto com regularidade, quais são as necessidades nutricionais aliadas à prática desportiva?

As crianças que fazem desporto podem consumir mais algumas calorias, o que se pode revelar em mais um lanchinho que as outras crianças/adolescentes, que estão sentadas e agarradas a iPads a tarde toda, não deveriam fazê-lo, pois não vão gastar estas calorias extras.

Quais os sinais de alerta para os pais começarem a preocupar-se com o peso das crianças?

Normalmente, o sinal de alerta é dado pela pediatria. Se as crianças forem uma vez por ano à consulta com o seu pediatra, vai ser percetível para o médico a evolução do peso e da altura e se as coisas não estiverem bem recomendam a consulta a um nutricionista. Por isso, primeiro recomendo a consulta ao pediatra.

«A sensação que os pais podem ter em saber que estão a contribuir para um futuro melhor dos seus filhos compensa todo o esforço que, inicialmente, tenham que fazer»

A partir de que idade é recomendável os pais levarem os filhos ao nutricionista?

Apreender a comer melhor, tirar dúvidas e, até, uma consulta familiar para melhorar os hábitos de uma casa inteira não tem idade. Obviamente, não faço consultas a bebés, controlo o peso de crianças a partir dos 7-8 anos.

Talvez por desinformação, ou por ser mais prático, muitos pais não se apercebem que a nutrição infantil pode definir o futuro da saúde dos filhos. Que mensagem pode deixar?

A sensação que os pais podem ter em saber que estão a contribuir para um futuro melhor dos seus filhos compensa todo o esforço que, inicialmente, tenham que fazer. Muitas crianças/adolescentes podem, no princípio, estranhar, mas rapidamente se habituam-se àquilo que é bom e lhes faz bem, até porque sabor nestas receitas é o que não vai faltar, o que vai faltar são mesmo químicos, gorduras más e compostos industrializados que têm contribuído para a falta de saúde em geral. Sejam determinados durante a semana, não cedendo aos desejos dos filhos (salvo exceções, se, por exemplo, a avó faz anos durante  a semana, claro que haverá algumas ‘asneiras’), mas não cedam muito mais. Eles vão habituando-se que excessos são só ao fim de semana. É um conselho mesmo importante para que seja possível uma mudança: não tenham, nem comprem nada de mau para ter em casa, assim é impossível eles fazerem ‘asneiras’.

 

Créditos:

Foto da entrevistada: Micaela Neto

 

Por Tânia Martins

Jornalista

Editora HealthAdvisor

 

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