Foto: Estelle Valente

Assumidamente defensora de um planeta mais verde e de uma alimentação cuidada em prol de uma vida mais equilibrada e feliz, Anabela Teixeira criou o blogue Voltar à Terra, que, no mês de maio, está de parabéns, já que comemora 2 anos de existência. Numa entrevista exclusiva à HealthAdvisor, a atriz falou sobre este projeto «tão especial»partilhou momentos e histórias inesquecíveis, falou sobre a sua carreira profissional e revelou, ainda, os segredos para uma beleza natural e saudável. 

Para quem ainda não conhece o blogue, fale-nos deste seu projeto pessoal…

Comecei a escrever diariamente para o blogue Voltar à Terra em 2015. O lançamento do blogue foi no dia 7 de maio, de 2015, uma data que gosto/gostamos sempre de comemorar. O blogue tem várias categorias, mas as ‘Rotas Bio’ são as minhas preferidas. Aqui, partilho experiências relacionadas com hortas, lazer amigo do ambiente, leituras verdes. Mas, o melhor é ir ao site e navegar por ele: www.voltaraterra.pt. O nome, Voltar à Terra, não apareceu de imediato. O que apareceram foram as pessoas ligadas à Natureza, à agricultura biológica, sem uso de produtos químicos. Pessoas a pensar num presente sustentável e que faça sentido. Coerentes com as canções que são ensinadas, agora na escola, às crianças e cujas letras dizem que é preciso salvar o mundo. Os recursos do planeta são limitados, há transformações diárias. Os ecologistas, desde o início do séc. XX que falam sobre isto. E há movimentos, há pessoas que se apoiam, que partilham ideias, que se movem em casa, no seu bairro, na sua terra.

Como tem sido esta experiência no mundo digital?

É um novo desafio e um mundo com muita coisa a descobrir. Coloca-me em relação com imensas pessoas e projetos sobre o tema da sustentabilidade, de estilos de vida saudável, em Portugal e pelo mundo. Dou, por mim, a conhecer filmes, livros, outros blogues e bloggers que tentam fazer do nosso planeta um local possível para as novas gerações.

As pessoas conhecem-na enquanto atriz. É importante para si que vejam o outro lado da Anabela?

É importante para mim ter um contacto mais íntimo com as pessoas, mas que não interfira, de modo algum, com a minha vida pessoal. Gosto de estar perto das pessoas, de comunicar e de partilhar, neste caso específico, dicas sobre a alimentação que faço, as limpezas ecológicas, o exercício físico, a importância do yoga e da meditação e das massagens para ter uma ‘mente sã em corpo são’. Nessa partilha, informo também onde compro os produtos biológicos e porque o faço, tendo noção que estou a ajudar a derrubar mitos, tais como, “é muito caro” ou “não é acessível”, pelo contrário, está cada vez mais perto de nós. E, espero que seja uma moda, porque é uma moda urgente e necessária. Sermos ativistas e não fundamentalistas.

Foto: Estelle Valente

Em maio, o blogue comemora 2 anos de existência. Ao longo destes anos tem ‘plantado’ dicas sobre alimentação biológica e comportamentos ecológicos. Que conhecimentos ‘colheu’ sobre esta temática?

Ainda estou a ‘colher’! A propósito desta linda palavra ‘colher’ – uma das coisas que gostaria de fazer era um curso de agricultura biológica, coisa que ainda não aconteceu. Gostava de, um dia, o poder concretizar para poder plantar na minha varanda e, quem sabe, mais tarde, no meu jardim. Em relação a comportamentos ecológicos tenho mudado muita coisa na minha vida ao longo destes 2 anos e graças ao blogue Voltar à Terra. Diminui drasticamente o consumo de carne, sou praticamente vegetariana, ainda como peixe (a pesca não sustentável aflige-me, bem como a criação de gado, que é um dos maiores poluentes do planeta como por exemplo, a desflorestação da Amazónia). Todos os produtos que consumo neste momento são praticamente com certificação biológica – cosméticos, limpeza da casa e alimentação. Antes de comprar, escolho mais e tento comprar a granel para reduzir o uso de sacos e plásticos. Tudo isto é uma questão de hábitos, porque o ser humano é um animal de hábitos! Claro que não é necessário falar da reciclagem, de desligar as luzes e fechar a água quando não são necessárias…

«O contacto com a terra é terapêutico»

Quando despertou em si o interesse pela agricultura biológica e respetivos benefícios para a saúde?

Respondo com um texto que escrevi para o blogue (sorriso): “Em 2011, numa novela, fiz uma personagem que tinha cancro, um flagelo do qual eu não tinha noção que afetava tantas pessoas ao meu redor. Foi uma performance intensa, que mudou a minha vida, pelos testemunhos que me ofereceram, por aquilo que li. E, então, comecei, aos poucos, a introduzir produtos de alimentação biológica, a fazer limpezas ecológicas (não há químicos cá em casa) e a comprar produtos também para o corpo e rosto, para mim e para o meu marido.

Os meus avós eram agricultores. Desde os quatro anos de idade que estar perto da Natureza, para mim, era como ter um tesouro. Sentia-me privilegiada por poder viver no meio da floresta. O medo das trovoadas, as rezas da minha avó, brincar com as pedras, ir com as minhas tias muito cedo levar a merenda ao meu avô que, no cimo da serra, tirava resina dos pinheiros… Dormir sestas debaixo das árvores, arranhar as pernas com silvas no meio das amoras, apanhar batatas e pisar as uvas na adega, entrar para dentro da pipa.

O sabor das batatas cozidas, esmagadas com tomate e azeite sempre me ficaram na memória, como um sabor único, natural. Um sabor que agora tento recuperar nestas conversas com agricultores com as mesmas preocupações e ligação à terra que conheci nos meus avós. Eles tinham animais que cresciam em liberdade. E abelhas. O meu avô também se dedicava à apicultura. Poucos sabem da importância que as abelhas têm no nosso ecossistema! Volto a ouvir isto da boca de uma bióloga que se torna uma amiga. E, de repente, tudo faz sentido. É preciso voltar às árvores, à criação de animais ao ar livre, voltar a aproveitar recursos naturais e nacionais.

Um acidente fez com que a minha avó deixasse a sua ‘Horta Velha’ e fez com que eu voltasse à terra dela. ‘Ir à terra da avó’ sempre fez parte da minha vida, ‘Quando é que vamos à terra da avó?’. Todos os anos a ida à terra incluía festas da aldeia, cantigas e histórias à lareira, carne com um sabor único e os ovos amarelos como nunca vi! Ir à terra da avó, além de engordar, significava voltar com o coração cheio de paz e energia. Não é por acaso que muitas das pessoas com quem tenho falado, e a quem chamo de meus parceiros nesta aventura do blogue, me dizem que o contacto com a terra é terapêutico. A agricultura é um trabalho duro e difícil, mas visto como uma missão e forma de vida. De volta à terra, tenho o cheiro a eucalipto no carro e os legumes frescos, com uma intensidade que desejo voltar a ter na minha vida. Voltei à terra há uns meses para ir buscar a minha avó que está agora a viver com a minha mãe e aproveitei para guardar ovelhas”. Podem aproveitar para ler o post que também já está online.

Foto: Estelle Valente

O que mudou, desde então, na sua alimentação?

Como deixei de comer carne, e como peixe mais ou menos três vezes por semana, procuro a proteína nas leguminosas. A minha alimentação é muito baseada em vegetais e, em casa, são todos provenientes de agricultura biológica.

Esta opção mudou-a também enquanto mulher?

A ligação à Natureza é essencialmente feminina. A Mãe Terra, mãe de todos os seres vivos, animais, homens, mulheres, plantas, árvores, etc… os fundamentos da ecologia.

Gosta de cozinhar?

Gosto muito.

Qual é o seu prato favorito?

Tenho vários pratos favoritos, mas, ultimamente, fiquei rendida à feijoada de legumes do Chef João Silva, da Quinta do Arneiro. Talvez, porque me faz lembrar o sabor da feijoada que a minha avó fazia na aldeia. Com os legumes vindos das suas hortas muito fresquinhos.

«Faz-me muito feliz viajar e estar em contacto com a Natureza»

O que a faz feliz e realizada?

O sorriso do meu marido, passar bons momentos com a família, os amigos, de preferência, num lazer amigo do ambiente. Faz-me muito feliz viajar e estar em contacto com a Natureza. Realiza-me muito a minha profissão. Adoro ser atriz, aprender e ter espaço para criar e inspirar-me na arte de descobrir a natureza humana, através das personagens que interpreto.

Prestes a fazer 44 anos, continua a fazer sobressair toda a sua beleza. O que faz para manter este ar jovial?

Obrigada pelo elogio. O meu nutricionista, Humberto Barbosa, em tom de brincadeira, diz-me que o segredo da longevidade é um bom marido, um bom colchão e uma boa almofada. Em tom de brincadeira, claro! Dou muito importância à alimentação, por isso falo do meu nutricionista. Continuo a ser seguida nas consultas de nutrição, pelo Dr. Tomás Barbosa, da Clínica do Tempo, onde também faço vários tratamentos. Gosto muito de dançar, correr, caminhar, meditar, fazer yoga e vou ao Holmes Place treinar, pelo menos, três vezes por semana. E quando se gosta do que se faz, trabalhar deixa de ser obrigação e passar a ser prazer na entrega. Sinto, muitas vezes, a minha profissão como uma missão de amor e paixão.

Foto: Lucas Moraes

Envelhecer assusta-a?

Não. Gosto da idade que tenho, não gostava de voltar a ter 30, 20 ou 10 anos. Nem pensar! Acho que a idade traz uma tranquilidade interior e nos oferece muitos presentes, através de todas as pedras que nos aparecem no caminho e que temos que aprender a transportar ou a largar (gosto muito desta metáfora das pedras).

É adepta das terapias alternativas. Faz yoga, acupunctura e pilates. Este é o seu segredo para um maior equilíbrio do corpo e da mente?

Já pratiquei todas essas terapias alternativas, sou muito a favor e estou sempre atenta a novas terapias que sejam interessantes. Os meus pais eram ambos enfermeiros e sempre ouvi o meu pai dizer para procurar alternativas à medicina convencional. Acho que era um bom conselho, tem corrido bem comigo.

Fez, há alguns anos, uma viagem de 7 meses e meio ao Oriente. Fale-nos desta aventura…

Foi uma viagem muito intensa: mês e meio na Índia, um mês no Nepal, outro na Tailândia e depois Macau, Hong Kong e China. A Ásia fascina-me totalmente pela sua religião hindu e a budista. Em relação ao exercício físico: já falámos do yoga, mas também adoro praticar tai shi shuan e experimentei o aikidu, são práticas que já aprendi e que acho fascinantes de uma sabedoria rica e milenar. Na Ásia, inspira-me também a gastronomia, as músicas e a dança. Na Índia, o teatro Kathakali e o cinema de Bollywood. Mas, todas as viagens que fiz me marcaram, quer fossem na Europa, em África, no Brasil ou nos EUA. Ainda gostava de conhecer a América Latina, a Austrália e outros.

«Não consigo imaginar-me sem representar e estudar»

É uma atriz muito conhecida do público português. Como surgiu a representação na sua vida?

Tinha 8 anos quando me lembro de ter sentido, pela primeira vez, que queria ser atriz. Ao ver o musical Annie disse, em voz alta, que queria estar naquele palco e ser uma daquelas meninas e, ainda hoje, adoro assistir a musicais. Comecei a fazer teatro na escola desde a primeira classe. Quando saí do 12º ano fui fazer um curso de teatro profissional e, no final desse curso, tinha 18 anos, fiz uma audição para um filme e para uma série de televisão e fui escolhida para entrar nos dois. Não consigo imaginar-me sem representar e estudar. Neste mês de maio ainda podem assistir ao último episódio da série Vidago Palace, na RTP1.

Atualmente, está a fazer espetáculos…

Estou a fazer o espetáculo Voltar à Terra que, por mais paradoxal que isso possa soar,  é um monólogo recheado de pessoas. Partiu do blogue Voltar à Terra e tratou-se de um processo muito natural; começaram a convidar-me para ser oradora para falar do blogue e achei que, como era atriz, deveria aproveitar o teatro como forma de chegar às pessoas, de uma maneira mais subtil e sensível. O diretor e dramaturgo é o Mário Coelho, um jovem muito talentoso, a música original é do Frederico Pereira, o desenho de luz do Ricardo Campos, a produção da Isabel Tavares e, sim, estamos agora a viajar com o espetáculo. Já estivemos em Mafra, na Quinta do Arneiro, vamos a Paredes de Coura, dia 6 de maio participar na Green Weekend e dia 7 de maio na festa da Primavera de Cascais, na Quinta do Pisão. Antes dos espetáculos temos sempre encontros com pessoas da comunidade com as quais partilhamos histórias, canções, tradições e experiências ligadas à Natureza. Depois, parte dessas pessoas são integradas ao longo do espetáculo. Todos os espetáculos vão mudando e sendo diferentes, conforme as pessoas e o local em que estamos. É maravilhoso e verdadeiramente ecológico.

Que mensagem gostaria de deixar aos nossos leitores?

Esta noção de que contar histórias mantém o planeta vivo e torna a terra necessária. Os contadores de histórias relacionam-se com a terra e fazem-na renascer.

 

Créditos:

Foto de capa: Estelle Valente

 

Por Tânia Martins

Jornalista

Editora HealthAdvisor

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