Foto cedida pela Pactor Editora

Como devemos gerir esta vontade de estar sempre conectado? Quando dizer que já chega? Como pais estaremos a agir bem? Estaremos nós a dar o melhor exemplo aos nossos filhos? O que podem as escolas e as comunidades fazer para melhor gerir a tecnologia na vida dos jovens? Estas são algumas das perguntas que Ivone Patrão, psicóloga e autora do livro #Geração Cordão – A Geração que não Desliga, responde nesta entrevista, fazendo-nos repensar na educação dos nossos filhos numa era em que tudo é digital.

O que a motivou a escrever este livro?

A área do uso, abuso e dependência da tecnologia interessou-me, desde logo, na clínica com crianças e jovens que surgiam com alterações de comportamento e problemas relacionados com o sono e relacionamento social. Rapidamente me apercebi que o ponto comum era o uso excessivo da tecnologia, fosse de redes sociais, jogos online ou mesmo de apostas online. Um dos meus primeiros casos, há alguns anos, foi de um jovem recém-licenciado que gastou uma herança que havia recebido em apostas online. Parti para a investigação nesta área para perceber e compreender melhor este fenómeno na população portuguesa. Tenho estudos com crianças, jovens e pais e em todos se percebe que há uma percentagem das amostras que revelam dependência da tecnologia, o que é preocupante. Se, hoje em dia, o mercado de trabalho exige jovens competentes, sobretudo do ponto vista relacional e emocional, de forma a conseguirem gerir conflitos e serem autónomos, então, temos mesmo que nos preocupar com a promoção da gestão saudável da tecnologia. Um dos riscos do uso abusivo contínuo, ao longo do desenvolvimento, é a inibição social e relacional, o que traz repercussões a longo prazo no planeamento do projeto de vida profissional e pessoal. Com todos estes achados, considerei que seria importante escrever um livro para o público em geral, de forma a dar um contributo para a sensibilização nesta temática.

Desta geração fazem parte os jovens que estão sempre online, comunicam online, passam horas imersos nas redes sociais com os amigos ou em jogos online, completamente alheios ao resto do mundo. Até que ponto pode ser saudável?

A geração cordão corresponde às crianças, jovens e adultos das gerações X, Y e Z que não desligam da tecnologia no seu dia a dia e que poderão expressar dificuldades nas competências sociais e relacionais, sendo que os mais novos podem inibir o seu processo de autonomia. É bom estar ligado, mas não é saudável estar dependente de um cordão para ser alimentado a todos os níveis. Há que laçar o cordão, podendo estar ligado à tecnologia e à família de origem, experimentando outras vivências e outras relações.

«Deve existir em família a possibilidade de instituir, pelo menos, um dia sem tecnologia»

Como é que os pais devem agir nestas situações?

Primeiro que tudo, é necessário que haja diálogo e negociação entre pais, filhos e escola desde tenra idade. Se este assunto não for discutido desde cedo, já perdemos uma parte do comboio. Neste diálogo é importante a adequação das regras ao nível de desenvolvimento e idade da criança/jovem e ao contexto familiar. É essencial compartimentar o tempo, de modo a abranger todas as atividades relevantes para o bem-estar de todos, sendo a tecnologia uma dessas atividades. Deve existir em família a possibilidade de instituir, pelo menos, um dia sem tecnologia. Como as famílias podem ter diferentes formatos (por exemplo, monoparentais, reconstruídas) é fundamental negociar o papel mediador das tecnologias na gestão diária, para não termos cenários contraditórios, incoerentes e, muitas vezes, favorecedores do aumento do uso da tecnologia, criando, assim, a base para se instituir um uso problemático ou mesmo uma dependência.

Qual o melhor momento para dizer que já chega?

É fundamental negociar e estabelecer regras bem definidas. Não deveria existir o melhor momento para dizer “chega de tecnologia”. Deve instituir-se uma cultura de autorregulação de todos em família para que não seja necessário fazer controlo do uso, por exemplo, do tablet. Assim como ensinamos, desde tenra idade, as crianças a comer, a atravessar a estrada, a lavar os dentes, aqui também temos de o fazer e dar o exemplo.

Também muitos pais têm dificuldade em desligar-se da Internet. Estarão os pais a dar o melhor exemplo aos seus filhos?

Uns sim, outros não. O que os pais ainda não têm consciência é que também são modelos virtuais, ou seja, os filhos também acompanham e visualizam o comportamento online dos pais, sobretudo nas redes sociais.

Do seu ponto de vista, como devemos gerir esta vontade de estar sempre conectado?

Se olharmos para a História, há ciclos que se definem pela intensidade de experimentação de alguma novidade. As tecnologias estão a desempenhar esse papel. Neste momento, ainda estamos num crescente de ligação à tecnologia e de maior afastamento do físico, do toque, do cheiro. Os jovens não vão desligar, mas vão ter a necessidade de procurar mais para se sentirem bem e satisfeitos, especialmente a proximidade relacional. Por isso, ciclicamente, vamos chegar a uma fase de intermitência entre o virtual e o presencial, exatamente pela necessidade que o ser humano tem de se relacionar e da proximidade física. Claro que o preocupante serão os casos de jovens que vão permanecer sempre ligados, mas aí falaremos de dependência, de patologia.

O que podem as escolas e as comunidades fazer para melhor gerir a tecnologia na vida dos jovens?

Começar a implementar um programa local de gestão saudável da tecnologia, conforme dou dois exemplos no livro, um da Câmara municipal de Odivelas e outro da Azambuja. São projetos piloto e inovadores, que envolvem toda a comunidade na discussão desta temática e de forma contínua.

Estar online é seguro?

É sim, desde que se esteja alerta para os riscos e perigos. O que pergunto é se todos – crianças, jovens e adultos – têm um verdadeiro conhecimento desses riscos e perigos. Pela minha experiência clínica considero que a maioria não tem.

«Ao longo do livro, são várias as orientações para pais, professores e comunidade quanto ao uso saudável da tecnologia, alertando para diferentes temáticas»

No livro constam vários testemunhos (de figuras públicas, um jovem youtuber, uma professora, um psicólogo, um enfermeiro e uma educadora), casos reais, onde nós, leitores, podemos rever-nos em muitas situações. Que dicas práticas pode dar-nos para um consumo saudável da Internet?

Ao longo do livro, são várias as orientações para pais, professores e comunidade quanto ao uso saudável da tecnologia, alertando para diferentes temáticas. De forma geral, diria que devemos começar a casa pela base, e ainda estamos mesmo nesse nível, por isso, a primeira orientação de todas é: a necessidade de se falar sobre este tema em família, na escola, na comunidade – isto é, a necessidade de se discutir o tema e estabelecer pontos de concordância entre todos para que, através da negociação, se consiga alcançar um objetivo, por exemplo, a coerência de regras entre a casa e a escola. Só isto já traria muitas vantagens.

Que mensagem gostaria de deixar a todos os pais e professores que os ajude a tornarem as crianças mais felizes e melhor integradas na sociedade?

Que se relacionem com elas, que as conheçam na sua individualidade, com e sem recurso às tecnologias. Será o equilíbrio entre o consumo da tecnologia e o contacto real (com as pessoas, com a Natureza, pela experimentação) que se poderão desenvolver de forma saudável.

 

Por Tânia Martins

Jornalista

Editora HealthAdvisor

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

eighteen + ten =