Desde tenra idade, Ricardo aprendeu que sem dinheiro nada se faz e a vida não tem sentido. Para ele, dinheiro é vida e felicidade plena. Cresceu numa família com poucos recursos financeiros, pobre em afetos, onde sempre imperou o papel de vítima da sociedade. A sua adolescência foi marcada pela proteção da mãe, a agressividade e o autoritarismo do pai. Ricardo nunca percebeu como estar perante as situações que eram sempre vividas com ansiedade, sofrimento, vistas como uma guerra e nunca como um desafio, uma oportunidade para melhorar e crescer. Desde cedo, copiou este papel e fez deste o seu modo de estar perante a vida.

Sofia sempre acreditou que com amor, querer e dedicação, tudo poderia estar ao seu alcance. Sempre disse: «Tudo o que quero e me empenho, consigo!» e defendeu perante os que ‘corriam’ atrás da felicidade: «A felicidade vem de dentro e não do exterior». Para ela, tudo sempre teve solução e sempre defendeu que se os momentos bons são efémeros, os menos bons também o são e, no fundo, é essa alternância de momentos e estados que nos impulsiona a agir e tanto nos ensina. Sofia cresceu numa família também ela pobre em recursos económicos, mas recheada de afetos e de força de vontade.Desde muito cedo, os pais de Sofia lhe fizeram ver que não possuíam grandes ‘dotes financeiros’, mas que o seu amor, força de vontade e trabalho eram fortes e tudo ultrapassariam. De todas as dificuldades vividas sempre retiraram ensinamentos de vida.

Ricardo conheceu Sofia, durante a sua adolescência, no liceu, foram colegas de turma, tornaram-se amigos. Ricardo não tinha muitos amigos e Sofia era um ombro, onde podia desabafar os seus ‘infortúnios’ e lamentar não ter todo o dinheiro do mundo para ‘viver sem preocupações’, como era seu hábito dizer.

Sofia tinha sempre um sorriso, uma palavra de esperança para o consolar, mas frequentemente o questionava:

«Ricardo, tu além de vires a ter muito dinheiro, com o que é que tu sonhas?»

Ao que Ricardo respondia sempre contrafeito:

«Lá estás tu outra vez, com o que é que achas que eu devo sonhar? Eu não tenho vontade, nem tempo para sonhos, tenho é que fazer um curso e arranjar um emprego onde ganhe bastante para viver desafogado e comprar tudo o que me apetecer.»

Sofia ainda retorquia:

«E no meio de tudo isso, que lugar têm os teus amigos, a tua família, que tempo vais ter para lhes dedicar? Nunca pensas neles? Não sonhas com eles, em partilhares momentos, em criares também tu uma família, teres filhos…?».

«Filhos? Nunca!» – Afirmava Ricardo com veemência, encarniçando-se com a manifestação das suas convicções.- «São uma dor de cabeça, nunca estão quietos e dão uma despesa imensa!».

Sofia não insistia, pois via que Ricardo estava determinado a ‘validar’ sempre as suas crenças, reforçando-as com atitudes prepotentes e repelentes de amizades sinceras. Muitas vezes, dava consigo a pensar: «Como pode ser assim? Acredito que por detrás existe um ser mais flexível e humano, nunca vou desistir da nossa amizade, mesmo diante das suas ‘crises’ de prepotência, serei mais forte e resistente do que elas.»

Os anos foram passando…

Os anos foram passando e, no final do 12º ano, Sofia consegue colocação num curso de Ciências Humanas e Ricardo em Economia. Sofia organizou um jantar com todos os seus amigos, onde Ricardo não pôde deixar de estar presente, embora considerasse o mesmo, uma futilidade e pura perda de tempo. Durante toda a noite, Ricardo apregoou aos presentes, que iria ser um economista famoso e enriquecer num ápice. Mudar-se-ia para uma mansão, teria três a quatro carros e os melhores costureiros ao seu dispor. Sofia apenas agradecia a todos o facto de estarem presentes no jantar e partilharem a sua alegria por ter entrado para a faculdade. Mais uma vez, transmitiu a sua mensagem de apreço por todos e a sua disponibilidade para aqueles que mais precisassem do seu apoio. Os anos de faculdade foram velozes para ambos. Ricardo, sempre preocupado com os números e o dinheiro, pouco se divertia e, na verdade, poucos eram os que lhe faziam companhia. Sofia preocupava-se em estudar, mas preocupava-se também, em viver a essência do espírito académico. Partilhava com os colegas saberes, angústias, desejos, alegrias, tudo. Estavam todos no mesmo barco e a sua união e espírito de interajuda eram fundamentais para chegarem a ‘bom porto’. Sempre soube que todos eram importantes, cada um com a sua missão.

Durante esses anos, Ricardo e Sofia falavam apenas por telefone e só se encontravam nas férias. Sofia mantinha sempre o seu sorriso reconfortante e apaziguador e Ricardo a mesma expressão preocupada e insatisfeita. No final do curso, Ricardo arranjou um estágio numa empresa com forte implementação no mercado, findo o qual ficou integrado no quadro de efetivos da mesma. Sofia realizou o seu estágio numa organização sem fins lucrativos, exímia em excelência no que respeita à prestação de serviços. No final do estágio, Sofia estava no mercado de trabalho à procura de emprego, mas isso não a afligiu. Continuava o seu trabalho na organização em regime de voluntariado e nas horas livres dava explicações que lhe permitiam ganhar algum dinheiro para as suas despesas, que não eram muito elevadas, pois ainda vivia com os pais.

Sempre insatisfeito e ‘sequioso’ por dinheiro, Ricardo ia saltitando de empresa em empresa, sempre na procura de mais e mais. A sua vida era passada entre o trabalho, as lojas de marca e os melhores restaurantes. Nada mais importava a não ser o poder que sentia com dinheiro para comprar tudo o que lhe apetecia. Os ‘amigos’ passaram a ser ocasionais conforme lhe conferiam mais ou menos estatuto. Passou a viver obcecado com o dinheiro, os pais foram envelhecendo, os amigos desaparecendo, mas nada o abalava. Assim que teve oportunidade comprou uma vivenda para onde se mudou e dos pais só tinha notícias quando estes lhe ligavam ou quando precisava de alguma coisa deles.

Sofia só arranjou emprego 6 meses após o fim do estágio. Mais do que o vencimento que auferia, era a natureza do trabalho que fazia que a atraía na função que desempenhava. Como lhe ‘sobrava’ sempre algum tempo ao final do dia, aproveitava-o para rever os amigos e frequentar ações de formação que contribuíssem para o seu desenvolvimento pessoal. Foi num destes cursos que conheceu uma colega que lhe falou na possibilidade de frequentar um curso de formação de formadores e tornar-se formadora em desenvolvimento pessoal, área de eleição por excelência de Sofia. Cada vez mais, o trabalho significava prazer e Sofia nem sentia o tempo passar.

Finalmente, adquiriu uma casa para si, um espaço em tudo semelhante a si própria. De Ricardo pouco ou nada sabia. As tentativas de contacto resultavam em nada, pois este nem chegava a atender os seus telefonemas. Um dia, encontrou Ricardo quando este estava numa das suas mudanças de emprego, sempre ‘esbaforido’ da incessante busca por ‘dinheiro/felicidade’. Estava pálido e com a tez marcada pelas rugas resultantes da sua expressão permanente de sobrolho franzido.

«Como é que estás Ricardo? Nunca atendes os meus telefonemas, estou preocupada contigo. Como é que estão os teus pais? O que é que tens feito? Vamos tomar um café e conversar um pouco.»

Ricardo limitou-se a responder contrariado:

«Olá Sofia, continuas com esse sorriso patético e parece que estás com um ar descontraído, não te preocupas em trabalhar com mais afinco para ganhares dinheiro que te permita sobreviver nesta selva em que vivemos? Eu estou à procura disso, mas parece que as empresas onde estive não apreciam os colaboradores e acabei de me despedir de mais uma. Vou agora a uma entrevista para outra empresa, preciso de trocar de carro, quero um mais potente e, para isso, tenho de ter mais dinheiro, custe o que custar. Os meus pais devem estar bons, não sei nada deles desde há quinze dias e tomar café contigo, não tenho tempo para essas coisas.»

Quando Sofia ia para lhe dar uma resposta, já Ricardo tinha desaparecido na esquina, deixando-a perplexa e preocupada com o seu modo de vida.

Pensou: «Quando é que ele vai perceber que tem que aproveitar os momentos, o presente que engloba os amigos, a família, tudo, até as oportunidades que aparecem, mas que ele não vê, cego com a sua ambição e preocupação só com o futuro?”.

Um dia, Sofia recebe um telefonema de Ricardo:

«Estou Sofia… como é que tu consegues?», Ricardo soluçava.

«Ricardo, o que é que se passa contigo? Consigo o quê?».

«Sofia, os meus pais tiveram um acidente e faleceram. Eu, nesta correria louca em que andava, nem gozei estes últimos anos da sua companhia, não estive presente quando eles mais precisavam, não lhes dei o carinho que eles mereciam e agora o que é que eu faço quando já não os tenho? Nem os tenho a eles, nem tenho emprego, pois há mais de dez meses que não encontro nada. O meu dinheiro está a acabar, tive que vender os carros, não sei se consigo sustentar a casa e não tenho ninguém, nem nesta hora tão difícil da minha vida. A minha vida… tu pareces sempre tão feliz. Como é que consegues, tens alguém que te dá dinheiro? Ganhas muito dinheiro? Como fazes?

«Ricardo, onde estás? Espera por mim, estarei aí o mais rápido que puder. Não desanimes, podes, aliás, como sempre pudeste, contar comigo. Depois conversamos. Até já!».

Sofia, assim que chegou ao pé de Ricardo, abraçou-o, procurando transmitir-lhe toda a força confiança e serenidade que existiam em si. Ricardo sentiu-se como que invadido de um bem-estar e plenitude jamais experienciados. Depois do funeral dos pais de Ricardo, onde apenas, além da restante família, estavam presentes os dois, Sofia combinou com Ricardo que todas as semanas se encontrariam duas vezes ao final do dia para puderem conversar e procurar encontrar as respostas que Ricardo, finalmente, tanto queria saber. Pouco a pouco, e com as conversas que ia tendo com Sofia, Ricardo percebeu que tinha passado ao lado da vida estes anos todos, mas que tinha nas suas mãos o poder para reverter esta situação e aproveitar o que de melhor a vida tem para lhe oferecer no presente: o respeito por si, pelos outros, a amizade, a humildade, a disponibilidade, o amor e as oportunidades de evoluir enquanto ser humano.

Uma segunda oportunidade para ser feliz

Passado uns anos, Ricardo compreendeu que a vida lhe tinha dado uma segunda oportunidade para ser feliz e, desta vez, ele tinha percebido qual o melhor caminho. Estaria eternamente grato a Sofia pelo seu apoio e amizade sempre disponíveis e que durante tantos anos tinha ignorado. Pouco a pouco, foi procurando desenvolver-se como pessoa através da frequência de cursos, seminários, leituras e muita, muita partilha e troca de experiências com colegas e amigos. Hoje, muito embora desempenhe uma função no âmbito da sua área de formação inicial, procura aproveitar os seus tempos livres para contribuir para a formação de todos os que, como ele, ainda não descobriram que a felicidade está dentro de si e o bem-estar passa pela consolidação e confiança nas relações que estabelecemos e nos objetivos que traçamos. 

 

Por Teresa Sousa

Coach Profissional, Psicóloga Clínica

Consultora/Formadora na Área Comportamental e de Recursos Humanos

Associada da Apcoaching

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