«Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem. Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o facto de uma estória ser contada faz com que um céu estrelado e uma lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica para trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso. E não importa o que tenha ficado para trás, é com essa dádiva que devemos trabalhar, é ela que devemos usar para criar alma.» (Clarissa Pinkola Estés)

Quando se usam as palavras mágicas com que se iniciam os contos de fadas e as estórias mitológicas, algo acontece. «Era uma vez», «Há muito, muito tempo», «Num reino distante»… são frases que mudam a nossa forma de estar. As vozes baixam até desvanecer, os rostos adquirem a expressão da curiosidade e cada palavra proferida ressoa no meio do profundo silêncio de quem escuta. Esperamos estas reações das crianças, mas uma boa estória, proferida na entoação adequada, com a emoção de ‘quem a presenciou’, causa o mesmo efeito nos adultos. Facilmente se escutam suspiros de enlevo no final de uma boa estória. Seja ela terminada com «e viveram felizes para sempre», ou «e ainda hoje os podemos ouvir, se escutarmos com atenção».

O que nos leva a ficar ‘presos’ numa estória? A pegar num bom romance para ler? A viver um filme com lágrimas nos olhos?

Vivemos as estórias não somente como se fossem nossas, mas PORQUE são nossas. É o que nos ressoa que nos comove, nos alimenta e nos cura. Podemos não conhecer o herói ou a heroína, mas certamente já vivemos essa estória, ou uma parte dela, em algum momento da vida. É essa faceta que nos toca e move e, através dela, conectamo-nos com os sentimentos dos heróis, as suas mudanças e as resoluções da sua demanda. E nos inspiramos para a nossa.

A arte de contar estórias

A arte de contar estórias era sagrada para os nossos ancestrais. A informação era passada oralmente, daí a importância de não poder ser esquecida. Por isso, o homem ou a mulher sábios – na figura de mestres – davam voz ao conto, ao mito, e o conhecimento era passado através de uma metáfora. A voz do mestre era sagrada e as suas palavras absorvidas num ritual, que unia pessoas, passado e presente. Desta forma, e através da identificação com a estória e inspiração profundas pelas palavras proferidas, eram transmitidos valores, tradições, vivências e segredos profundos para momentos importantes da vida.

Carl G. Jung, fundador da Psicologia Analítica, dedicou grande parte da sua vida ao estudo dos mitos. Através das suas viagens e estudos, apercebeu-se de que todos os povos do mundo contam os mesmos mitos. Com roupagem diferente, nomes distintos e um toque cultural próprio de cada lugar, o enredo e a mensagem é igual em todos os lugares. Estes estudos levaram Jung a desenvolver o conceito de Inconsciente Coletivo, a camada mais profunda da psique humana, formada por informação comum a toda a Humanidade e que se manifestaria através de sonhos, imagens, símbolos e, neste caso concreto, tornando-se acessível sob a forma de mitos.

Outro conceito de Jung foi a noção de arquétipo, que poderíamos definir como ‘imagem primordial’. São imagens psíquicas comuns a todos nós e que se ativam em determinadas fases da nossa vida. A mãe, o herói, a guerreira, o pai, a anciã.

Todos possuímos estas imagens arquetípicas dentro de nós e, de acordo com os momentos da vida, sentimo-nos e funcionamos numa dessas formas. Podemos não ter noção clara de que estamos a viver o arquétipo, porém, quando ouvimos um mito, um conto em que ele esteja ativo, o simbolismo da estória fala-nos diretamente à alma. Somos a personagem, a metáfora dos seus conflitos é um espelho dos nossos conflitos e ganhamos, descobrimos dentro, resgatamos a mesma capacidade de sair da crise.

Todas as boas estórias têm a mesma receita. O conflito ancestral entre o bem e o mal, um desafio quase impossível e a descoberta de recursos que não sabíamos que tínhamos. Uma lição de moral sobre a força que nos sustém e nos faz avançar e a transmissão de valores universais. Uma pequena estória, com uma boa dose de inspiração, pode acordar em nós a ‘magia’, essa força que desperta heróis e nos inspira a tornarmo-nos a personagem central da nossa estória.

O conto, o mito, a lenda pessoal

Necessitamos do conto, do mito, da lenda pessoal. Vivemos no hemisfério esquerdo do cérebro, com a racionalização da vida, a política e as contas mensais, o trânsito e a escola das crianças. O pragmatismo tomou conta do mundo e poucas vezes a arte, o silêncio e os apelos da alma são prioridade. Mas o hemisfério direito comunica e expressa-se de outra maneira. Através do não explicado, do mistério, do símbolo e do ritual. A estória é contada pelo hemisfério esquerdo, mas a metáfora do mito é entendida pelo hemisfério direito. Joseph Campbell, investigador do mitos e autor de O Herói das Mil Faces defende ativamente o valor e o poder dos mitos e das estórias como fonte de sabedoria e conexão com o que há de mais importante na vida. «Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana. Eles ensinam que você pode voltar-se para dentro e começar a captar a mensagem dos símbolos. O mito ajuda-o a colocar a mente em contacto com essa experiência de estar vivo. Esses bocados de informação, provenientes dos tempos antigos, que têm a ver com os temas que sempre deram sustentação à vida humana, que construíram civilizações e enformaram religiões através dos séculos, têm a ver com os profundos problemas interiores, com os profundos mistérios, com os profundos limiares da travessia, e se não souber o que dizem os sinais ao longo do caminho, terá de produzi-los por sua conta.»

«As estórias fazem-nos bem. Elas nutrem-nos e curam-nos»

A tradição do contar estórias começa a revitalizar-se no campo da terapia, sobretudo, mas também na vida das pessoas para quem o símbolo, o conto e os rituais são uma forma de alimento para as suas vidas diárias. Não são somente os mitos antigos que são terapêuticos. Num mundo em evolução, repleto de novas tecnologias, descobertas e novas formas de vida, uma boa estória transforma-se num ‘novo mito’. Seja Harry Potter, Luke Skywalker (Guerra das Estrelas), a princesa Mérida (Brave) ou Elsa de Arendele (Frozen), revemos nas novas estórias os mesmos arquétipos de mitos antigos. E também estes se revestem de novas roupagens, nomes diferentes e pistas referentes à cultura de hoje em dia. As estórias falam connosco de formas insuspeitas. Através delas, percebemos os valores universais dentro de nós, a força, sensibilidade, as nossas características heróicas. A forma como tocados por um mito diz-nos quem somos, nesse instante da nossa vida, o que valorizamos e qual o ‘percurso arquetípico’ que podemos fazer para chegar aos nossos sonhos.

Invista em conhecer a mitologia antiga, as estórias universais e, sobretudo, o folclore e as lendas do local onde cresceu, onde vive. Há muito a descobrir nas entrelinhas desses contos. Há muito de si, em cada personagem, nas suas forças e fraquezas, na sua capacidade de amar. Conte aos seus filhos as histórias de família, da sua infância. Ou outras estórias. Dê-lhes tempo para absorver as metáforas, ser o herói ou a heroína de um conto de fadas, identificar-se com os super-heróis.

As estórias fazem-nos bem. Elas nutrem-nos e curam-nos. Os seus exageros, atos mágicos e demandas são os nossos. Têm somente um nome diferente e caminhos mais ‘espetaculares’. Mas enfrentamos magos e feitiços e caminhos escuros todos os dias. Encontramos artefactos mágicos e bênçãos a cada etapa do caminho. Reconhecemos esses instantes, se estivermos atentos à nossa própria vida. Por isso, da próxima vez que se sentar a ler um bom romance, tenha em conta de que está a fazer mais do que aproveitar o lazer, ou gastar tempo. Recorde-se que está a alimentar a sua alma.

Pare, pense e reflita:

  • Vive o dia a dia e o pragmatismo como se fossem as únicas coisas importantes? Ou arranja espaço na sua vida para o mito? Tem tempo para ler, contar ou ouvir estórias? Procure encontrar formas de nutrir a sua alma.
  • Qual é a sua estória preferida? Com que personagem mais se identifica e o que é que tem a ver consigo? Que pistas lhe dá essa personagem e a sua demanda para a sua vida pessoal?
  • Em momentos de crise, encontre a sua personagem mítica interna e descubra os seus recursos secretos. Se quiser, procure recordar as estórias que evocam essa mesmo personagem. Viva a experiência de estar viva.

 

Por Élia Gonçalves

Coordenadora Pedagógica EDT / Psicóloga e Terapeuta Transpessoal

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elia.lopes@escolatranspessoal.com / www.escolatranspessoal.com

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