«De facto, é preciso conhecer que tipo de doença ataca o paciente, mas não será mais importante saber que tipo de paciente foi atacado pela doença?», (Sir William Osler).

Numa época em que a sociedade Ocidental busca o caminho das especializações, surge a sinergia de saberes vindos do Oriente e do Ocidente que se integram e unem numa nova disciplina: psiconeuroacupunctura (PNA). A PNA tem como base a integração harmoniosa de conceitos atuais da investigação científica em neuropsicologia com a milenar medicina chinesa. Para isso, centrou-se em pontos de união entre as diferentes formas de saber, promovendo uma avaliação do indivíduo em diferentes prismas, com foco primordial no equilíbrio biopsicoenergético. Para isso, utiliza técnicas de psicoterapia que promovem a unicidade inequívoca mente-corpo, através de uma visão energética, associada aos cinco elementos da medicina chinesa, sempre com base na perspetiva filosófica do TAO. Assim, a PNA é sustentada por uma rede de interações de saberes em varias áreas e a diferentes níveis, que vai desde o simbolismo corporal à metáfora emocional do SER.

Define-se como uma disciplina centrada exclusivamente nos transtornos mentais, emocionais e psicossomáticos, damos como alguns exemplos dominantes, as patologias depressiva, ansiosa, fóbica, traumática, fibromialgia, bem como outros estados emocionais de sofrimento individual. A inquietude do psiconeuroacupunctor é ajudar o indivíduo que tem à sua frente, e isso não passa por retirar os sintomas, mas sim, através destes, utilizar técnicas e estratégias individuais (uma vez que a terapia é ímpar, pois cada indivíduo é único) e multivariadas que estimulem o SABER e o SENTIR, para promover níveis de motivação intrínseca e autoconhecimento de padrões internos e externos, dotando o indivíduo de uma consciencialização plena da sua condição, o que lhe permite com as novas ferramentas adquiridas, liberdade de escolha de caminhos. Para chegarmos ao processo de consciencialização, que é o final de tudo, torna-se fundamental estudar de forma profunda e espessa todos os fenómenos que são ativados pela interação entre o indivíduo e o outro – Teoria das Interações Conscientes – pois todos vivemos numa realidade objetiva comum, mas cada um vive a sua própria realidade secundária interna, que é fundamental ser conhecida e interpretada. Na Natureza tudo tem forma e limite, o que atribui estrutura física para que a homeostasia seja mantida, o ser humano comporta-se de forma igual, logo, quando internamente perdemos o nosso limite e externamente a nossa forma, direcionamo-nos para o caminho do desequilíbrio energético/doença física ou mental.

A medicina chinesa

A medicina tradicional chinesa parte da filosofia oriental do TAO, que considera o ser humano e o mundo como um todo inseparável e influenciável mutuamente. Utiliza o método de análise sintético partindo do ponto de vista macroscópico, estudando as relações intrínsecas dinâmicas do Ser e de tudo o que está à sua volta, uma vez que o ‘efeito borboleta’ é um princípio fundamental.

As teorias de base da medicina chinesa são a lei do yin, yang e a lei dos cinco elementos, partindo de uma visão energética do ser humano, requer um estado natural de equilíbrio dinâmico e harmonioso funcional, assim, podemos dizer que «se o tempo for adequado florescerá um jardim vivo e próspero de saúde, e o acupunctor é o jardineiro que no tempo certo corta, poda, rega e fertiliza, prevenindo contra forças externas nefastas».

Enquanto a ciência e o pensamento cartesiano partem do ‘como’, o pensamento oriental e a medicina chinesa partem do ‘porquê’. Ambos são importantes, mas situam-se em locais e tempos diferentes. A ação preventiva da medicina chinesa considera o ser humano em três dimensões da existência que são inseparáveis e se interpenetram constantemente, chamados os ‘três tesouros’, a saber: o Jing (essência), o Qi (energia) e o Shen (o espírito/mente), apresentam-se como o marco da existência humana. O equilíbrio de cada um destes níveis e a sua harmonia são a chave da saúde humana e da longevidade. Na medicina chinesa, a doença física é a última manifestação sintomática de desequilíbrios, bloqueios, deficiências/excessos que levam à origem de padrões energéticos crónicos.

Heinroth, tal como Espinosa, defendia que corpo e a psique são a parte exterior e interior da mesma coisa (Vicente, 2005). A patologia psicossomática corresponde a uma alternativa ao sintoma, onde a simbolização não foi possível, e o fracasso das capacidades cognitivas de ligação e organização conflitual falharam. Assim, o corpo é usado como meio de reduzir a ansiedade e resolver inconscientemente o conflito. Na medicina chinesa, a atividade psíquica também não se encontra separada da atividade orgânica, textos antigos afirmam que «se o psiquismo estiver em paz, o sujeito está isento de doenças» (Mussat, 1974). De forma metafórica podemos dizer que a vela representa o corpo e a sua chama o espírito (Shen), logo o espírito habita no corpo e o corpo é uma manifestação do espírito.

Segundo Menninger, a psicossomática pode ser vista como uma automutilação inconsciente, resultante de autopunições perante ressentimentos e hostilidades reprimidas. A somatização será o acting-in sobre o corpo, notando-se a inflexão da agressividade perante a impossibilidade de revelar, afetiva e simbolicamente, o sofrimento psíquico (Matos, 2003).

A linguagem do sistema nervoso

A linguagem do sistema nervoso são as imagens, quando se censura a sensibilidade, reprime-se a fantasia, gerando uma confusão de linguagens, onde o controlo obsessivo das emoções, oriundo de um desequilíbrio no movimento Terra, e a contenção da agressividade, devido ao bloqueio da Madeira, inibe a fantasia e a função simbólica, gerando uma confusão de linguagens que leva da iliteracia emocional à indiferença e ao adoecer psicossomático (Sá, 2009), onde o movimento Fogo revela o seu descontrole. O Livro das Mutações refere a importância da consciência das características individuais, para assim serem tomadas medidas preventivas contra possíveis doenças, pois na medicina chinesa, cultivar o Shen é um dos principais métodos para preservar e promover a saúde. Um paciente com bom Shen está apto para recuperar da doença, enquanto um paciente que perde o Shen tem um mau prognóstico. A personalidade é algo que caracteriza o sujeito, tornando-o único, com repercussões em todos os aspetos da sua vida, inclusive na saúde e na doença. A formação da personalidade é um processo gradual, complexo, dinâmico e único, sendo a soma de como o sujeito age na sua relação com os outros, permitindo que nos reconheçamos e sejamos reconhecidos ao desempenhar os diferentes papéis sociais.

Jung (1948), arquitetou a psique como um sistema de energia parcialmente fechado, uma vez que fontes exteriores podem acrescentar energia ao sistema, por exemplo, a alimentação (Rong Qi). Ao ser submetido a constantes modificações externas não pode atingir um estado de perfeita estabilidade. As influências patogénicas antigas podem ficar retidas no corpo e não se evidenciarem, mas numa situação em que a mente é confrontada com algo violento ou chocante, o Xue (sangue) e Qi (energia) desequilibram-se e o Shen é atingido. O desgaste causado por qualquer tipo de reação emocional através do corpo, diminui a Wei Qi (sistema imunitário), que uma vez diminuída deixa uma cicatriz indelével, pois exige tanta adaptabilidade, que força o organismo como um todo até um nível de exaustão. O paradigma do jogo das interações leva-nos as ações adaptativas face à multiplicidade de situações decorrentes da aprendizagem e das estratégias utilizadas para encarar cada desafio, e isso, carateriza o nosso Shen!

Termino com uma profunda observação de Mencius: «O que vale a pena amar chama-se Bondade; à nossa essência chama-se Verdade; aquilo que enriquece com a Bondade e a Verdade chama-se Beleza; maravilhoso e secreto é o Shen, que vem do Tao e que representa todas as mutações maravilhosas, belas e imprevisíveis da Vida».

 

Por Margarida Seco de Oliveira

Psicóloga Clínica, Psiconeuroacupunctora

Docente do Instituto de Psiconeuroacupunctura

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