Após um longo período de ausência a cuidar exclusivamente da sua mãe, Alice regressara. Entrou e sentou-se, embora denunciando na expressão e nos gestos a urgência em sair. Correr dali. Fugir de mim e dela. Fugir do momento presente que a obrigava a sentir. Permanecer presente com as suas emoções e com os seus pensamentos implicaria lidar com os seus demónios, escutar e reconhecê-los. E isso significaria acrescentar mais culpa e vergonha à culpa que já pesava sobre si de forma consciente e consentida. Por não ser suficiente, por não ser perfeita. Alice recusava-se a falar senão de trivialidades, e tampouco consentiu uma única lágrima quando os seus olhos assim o imploraram. Ela não podia chorar, fosse por nunca lhe ter sido permitido ou ensinado, fosse por ter desaprendido e esquecido. E afinal, «quem cuida não se pode vulnerabilizar», assim acreditava. Durante vários anos, Alice serviu este propósito com alegria: cuidar dos irmãos, cuidar do casamento, cuidar dos filhos, cuidar da casa, cuidar da carreira, cuidar dos laços familiares e das amizades. Mas ninguém a preparara para o dia em que o ‘ato de cuidar’ se transformaria numa urgência ou exigência. Ninguém a preparara para a possibilidade do ato de cuidar perder os seus matizes cor-de-rosa e poder devolver-lhe uma imagem sombria de si mesma. Ninguém a preparara para a fadiga da compaixão. E quanto mais ela resistia e se debatia, mais a voz embargada, os sinais e os gestos incoerentes e caóticos deixavam vislumbrar o que o seu corpo não podia mais calar: o rio sinuoso que crescia e desaguava dentro dela, procurando todas as fissuras para irromper e ser visto.

Resguardada no animato, ‘Alice’ é mais um número sem rosto da listagem crescente de pessoas a quem coube viver o papel de Cuidador Informal e que, tal como tantos outros, sentiu a sua qualidade de vida ser diretamente afetada a partir do momento em que se dedicou a ‘estar ao serviço de’. Muitas vezes em detrimento de si mesma, esvaziando-se progressivamente até se despojar da sua identidade e poder pessoal. Independentemente da decisão consciente ou abrupta, livre ou imposta, ou mesmo imbuídos das melhores intenções e de genuína satisfação, raramente os cuidadores informais estão preparados para enfrentar as necessidades e dificuldades específicas que os esperam inerentes ao ato de cuidar, incluindo a avalanche de emoções e as armadilhas mentais que esta experiência pode acarretar.

E quando falamos de um familiar idoso, o cenário ganha novos e distintos contornos. Somos seres essencialmente sociais que desde cedo aprendemos a nos relacionar e a cuidar mutuamente, mas não fomos ensinados para enfrentar a deterioração e a perda das nossas figuras de referência ou para aceitar a inversão de papéis: um dia somos ‘filhos’ e, no dia seguinte, somos ‘pais’ dos nossos pais… ou dos nossos cônjuges… Do mesmo modo, não fomos preparados para aceitar que estes laços, provavelmente sempre sentidos como pedras basilares capazes de nutrir a nossa vida, possam ser agora fontes de dor e sofrimento. Não obstante o amor, aqui e agora.

Na realidade, estes cuidadores estão geralmente sujeitos a inúmeras pressões e exigências – físicas, mentais, emocionais, económicas, sociais e profissionais –, que acabam por condicionar e ditar as regras deste jogo do ‘dar e receber’. Envoltos em tantas preocupações e demandas, eles acabam frequentemente absorvidos no modo ‘fazer’ e esquecem o modo ‘ser’, entrando em modo ‘piloto automático’ e desligados do presente. Progressivamente, vão-se desconectando consigo, com os outros e com o mundo. Não é de estranhar que muitas vezes não tomem consciência da espiral nociva em que se encontram ou que emitam sinais de negação do seu real estado: o burnout em que estão profundamente mergulhados.

Síndrome do cuidador: o burnout e a fadiga da compaixão

Podemos frequentemente constatar o surgimento da ‘síndrome do cuidador’ e o adormecimento dos seus recursos e dons internos, únicos e singulares. Incluindo, a fadiga das qualidades compassivas que são fundamentais a essa relação de apoio e à própria satisfação da interação.

Facilmente a realidade do cuidador informal pode culminar numa perceção de esgotamento ou sobrecarga (burnout), com um severo impacto na qualidade de vida do próprio e na qualidade das suas relações com os outros e com o mundo. De repente, o idoso dependente passa a ser sentido como aquele que nos rouba tempo, energia e vida. Como que repentinamente, entramos em estado de tensão e alerta permanente, reatividade, excitação, problemas de sono, irritabilidade e explosões súbitas de raiva, dirigidas a tudo e todos. Inclusive, podem emergir sentimentos perturbadores antigos, incluindo mágoas e ressentimentos, decorrentes de conflitos e situações pendentes ou de um vínculo instável e frágil, associados ao familiar dependente. Todo o espetro de emoções é geralmente revestido de um forte sentimento de culpa, cujo monólogo interior, constante e tóxico, tende a exponenciar.

A presença de um vínculo firme e forte tende a tornar o cuidador permeável ao sofrimento e às angústias do outro interveniente da relação, deixando-se invadir e afetar por esses resíduos emocionais. De forma abrupta e incontrolável, passamos a ser assaltados por sonhos e pensamentos intrusivos relacionados com a sua vivência traumática e que nos fazem revisitar vezes sem conta aquela experiência dolorosa como se fosse nossa. De modo a evitar essa dor e sofrimento, desenvolvemos muitas vezes atitudes de distanciamento físico e afetivo (evitamento e embotamento) face a tudo e todos que possam evocar ou recordar-nos essa experiência.

O cansaço excessivo, ansiedade e stress, tristeza ou depressão, perda do tempo livre, solidão e isolamento progressivo, desinteresse pelas tarefas quotidianas, perda de sentido e vazio existencial são alguns dos sintomas perturbadores que surgem no decorrer deste processo e que sugerem uma forte afetação da nossa saúde.

Despertar para todos estes ciclos perniciosos que levam à fadiga da compaixão é o que possibilita ao cuidador resgatar o próprio bem-estar e construir relações mais satisfatórias, traduzindo-se em ganhos para ambos os intervenientes da relação.

Mas, como interromper esta espiral nociva? Como recuperar a nossa saúde, desfrutar mais do ato de cuidar?

Diversos estudos e programas continuam a colocar a tónica em atitudes mindful que podemos cultivar, sugerindo que as lentes com as quais apreendemos o mundo estão revestidas de filtros, gerados mais pela nossa realidade interna do que propriamente pelas circunstâncias externas. E neste processo, os nossos pensamentos e estados emocionais tornam-se cruciais, limitando e condicionando claramente o nosso olhar e a forma subsequente de nos relacionarmos com tudo o que nos rodeia, incluindo nós próprios. A ‘atitude’ com que os abordamos constitui a chave sagrada para a derradeira sabedoria.

A qualidade e satisfação da relação de ajuda que se estabelece entre ‘prestador’ e ‘recetor’ de cuidados dependerão igualmente desta atitude. A partir de uma observação atenta e compassiva, com amabilidade, abertura e curiosidade aprendemos a desfrutar mais do jogo de dar e receber, podendo mesmo acontecer no decorrer desta relação os próprios se indagarem ‘quem está realmente a dar e quem está a receber’. A compaixão coloca em marcha componentes – bondade, empatia, tolerância, compreensão, respeito e ausência de julgamentos – que nos permitem sintonizar com o nosso mundo interior e com o mundo interior do outro. Alguns autores, como Kristin Neff ou Paul Gilbert, reforçam o poder desta qualidade básica e defendem que a compaixão e a autocompaixão entrelaçam-se e reforçam-se mutuamente. A atitude compassiva requer que nos tornemos os ‘melhores amigos’: nossos e dos outros, criando sentimentos de apoio dentro e fora de nós.

Em suma, novas ciências emergentes sugerem que ao situarmo-nos numa gama de sentimentos expansivos e benevolentes ativamos uma qualidade no campo magnético que geramos que se irá repercutir positivamente em quem nos rodeia e nos nossos relacionamentos. Isto ajuda a compreender melhor a importância de cultivarmos qualidades amáveis e compassivas, quer em relação a nós próprios quer em relação aos outros. Primeiro, como fontes protetoras de stress, ansiedade, desânimo e depressão; segundo, como fatores potenciadores de vínculos mais satisfatórios, incluindo as relações de apoio e acompanhamento.

Breves sugestões mindful para os cuidadores informais

  • Entre cada tarefa, introduza uma pausa para realizar alguns exercícios simples de respiração consciente e para movimentar o corpo. Depois prossiga para a tarefa seguinte.
  • Programe o alarme do seu relógio, três ou quatro vezes durante o dia, para fazer um STOP: pare, respire e leve a sua atenção ao corpo, mente e coração. Observe o que acontece e depois prossiga com a tarefa que estava a fazer.
  • Realize um STOP quando se sentir tenso, alterado ou stressado.
  • Reserve uma hora, diariamente, para se dedicar a uma atividade que o nutra: ler um livro, ver um filme, fazer uma caminhada, ouvir música…
  • Escute o seu corpo, a sua mente e o coração. Se estes estiverem a pedir descanso, consinta. Sem julgamentos ou dureza para consigo.
  • Cultive a curiosidade, a amabilidade, o não julgamento e o sentido de humor.
  • Desenvolva um ritual de fim de dia, levando a sua atenção à respiração, ao corpo, à mente e ao seu coração. E agradeça por mais um dia!

 

Por Cátia Pinto

Tutora Mindfulness da EDT, Consultora Mindfulness, Psicóloga

catia.pinto@escolatranspessoal.com

www.escolatranspessoal.com

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

three × five =