Segundo a filosofia Budista, a ignorância espiritual é a grande causa do sofrimento humano. Cada um de nós é uma alma com um corpo e não um corpo com uma alma. A nossa alma já viveu muitas vidas e mais irá viver, dependendo do seu grau de evolução. Ou seja, quanto menos evoluída for a alma, mais vezes irá reencarnar, até não ser mais necessário. É para isto que cá estamos, para evoluirmos enquanto espírito que somos, seres eternos que escolheram reencarnar para aprender, ou melhor, relembrar quem realmente somos: uma centelha divina.

No mundo do absoluto, onde Deus ‘habita’, só existe Amor, nada mais. Por isso, para que Deus se pudesse experienciar tinha de o fazer no mundo do relativo, onde uma coisa só é por oposição a outra. Só se sabe o que é ser alto se tivermos conhecimento do que é ser baixo, e por aí adiante. Assim, Deus (podemos dar-lhe qualquer outro nome que faça mais sentido para nós: Ser Supremo, Criador… As palavras não são importantes, são meras indicações) dividiu-se num número infinito de almas para que se pudesse conhecer e experienciar através delas. Daí, dizer-se vulgarmente que nós somos uma parte de Deus e é verdade. Mas, se Deus é Amor, teria de existir o seu oposto para que o amor se pudesse manifestar. Assim, Deus criou o ‘Ego’, aquela ‘vozinha’ dentro de nós que nos diz que somos melhores do que os outros e que, portanto, no entender do Ego, nos define como seres humanos. Tudo o que o Ego puder fazer para que acreditemos que somos separados uns dos outros, ele vai fazer…

A superação do Ego

O desafio que cada um de nós enfrenta é a superação do Ego, é vivermos com a luz do Amor que está dentro de nós, bem acesa e luminosa para acabar com a escuridão, que é o Ego. Esta relação luz/escuridão é o que determina os diferentes níveis evolutivos de cada ser humano. Quanto mais optarmos pela Luz, que é o mesmo que dizer Amor (de onde todas as emoções positivas advêm), maior a nossa evolução espiritual. Em contrapartida, a opção pela escuridão (Ego), que se traduz pelo medo (onde todas as emoções negativas se geram) atrasará a nossa evolução enquanto espírito que é o que somos. No entanto, nada está perdido, pois só há um caminho, que é para a frente, em direção à Luz. Uns podem demorar mais do que outros, mas todos lá chegam. Deus é muito paciente, é o princípio e o fim de tudo e sem Ele nada existe.

O Ego leva-nos a acreditar que a vida é esta que conhecemos, a vida terrena, mas, para alguns de nós, que através de muito sofrimento já ‘despertámos’, sabemos que este mundo físico é uma ilusão, como diz Jesus em A Course in Miracles 1, uma ilusão criada para servir de escola de aprendizagem ou de ‘relembrança’ de quem nós na realidade somos (‘relembrança’, pois possuímos toda a sabedoria dentro de nós, é só uma questão de a recordarmos e colocá-la em prática).

Como espírito, não poderíamos experienciar a matéria sem um corpo físico. Assim, reencarnamos num corpo para podermos sentir, tocar e viver a experiência de Ser humano. Como terá dito Buda, «vida é sofrimento», pois só vivendo num corpo físico se sente dor, mas a dor não é necessariamente uma coisa má, pois é através dela que calamos o nosso Ego, enfraquecemo-lo e deixamos vir à superfície o nosso verdadeiro EU, a centelha divina que todos temos em nós. Este é o desafio que todos viemos à Terra enfrentar.

Quando o sofrimento se torna frequente e insuportável

Quando o sofrimento se torna frequente e insuportável (sob a forma de doença, acidente que nos deixa incapacitados, perda de um ente querido, etc.), acontece uma de duas coisas: ou não aguentamos e vamos por um caminho que não tem ou não poderá ter retorno (suicídio, drogas, alcoolismo, etc.), ou aguentamos e temos lucidez suficiente para perceber se conseguimos, ou não, mudar a situação… Se conseguimos, mudamos, se não for, de todo, possível, aceitamos e tentamos viver da melhor forma que soubermos.

Como diz Eckhart Tolle 2, quando aceitamos uma situação que não conseguimos alterar, podemos não estar felizes, mas estamos em paz. Isto, porque, a revolta e a frustração só nos vão conduzir ao ‘fundo do poço’, de onde poderemos não conseguir sair. Aceitarmos a situação dá-nos a clareza de espírito necessária para percebermos as alternativas que existem e, ao existirem, colocá-las em prática. Esta aceitação enfraquece o Ego (que se alimenta do conflito e de todas as emoções negativas), de tal forma que é como se saíssemos de um sono profundo e começássemos a ‘despertar’ para uma realidade que não conhecíamos, mas que é a realidade que todos estamos destinados a conhecer: que viemos a este mundo terreno para nos ‘relembrarmos’ de quem realmente somos, que é a nossa missão suprema, e que depois voltamos a ‘casa’, onde Deus vive e nos recebe de ‘braços abertos’.

Embora seja um lugar-comum dizer que ‘esta vida é uma passagem’, a verdade é que é mesmo. Nós não pertencemos a este mundo, estamos cá só algum tempo e quando a nossa alma decide ir embora, ela vai, porque sabe que a sua missão acabou e vai simplesmente regressar a ‘casa’, onde é esperada pelos entes queridos que partiram antes dela. Os que ficam cá, neste mundo físico, sofrem por não saberem de onde vieram nem para onde vão. Para isso, existe o ‘despertar’, que é a missão de cada um de nós neste mundo da matéria.

 

1) Um Curso em Milagres, um livro canalizado por Jesus através de Helen Schucman, entre 1965 e 1972.

2) Eckhart Tolle, ‘mestre espiritual’, que escreveu livros de grande sucesso, como O Poder do Agora (titulo original The Power of Now) e O Despertar de uma Nova Consciência  (título original A New Earth).

 

Por Adosinda Borges

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