«Nunca é tarde demais para ter uma infância ou vida feliz».

A primeira vez que ouvi esta frase, a minha atenção ficou captada como se o tempo tivesse parado e a minha mente precisasse de tempo para digerir a informação mas, lentamente, foi uma espécie de wake up.

A primeira viagem à criança interior é sempre emocionante, porque vamos a uma parte de nós que estava tão escondida e, na grande maioria, bloqueada. É como um despertar, recuperamos o brilho no olhar, tomamos consciência que o nosso inconsciente tem uma grande força no comando das nossas vidas, percebemos as defesas e os condicionamentos. É o início de uma profunda transformação interior.

A verdade, é que as crenças, a negligência consciente, ou não, dos pais/educadores e dos familiares nos mais diversos graus tem um impacto enorme nessa criança e na forma como a sua vida irá decorrer.

Quem teve uma infância maravilhosa, entre a conceção e os 11 anos, as suas hipóteses de estar sempre num estado de espontaneidade e criatividade natural, é grande. As subpersonalidades desenvolvidas até ao adulto foram positivas, adquiriu amor por si e os demais e outras qualidades que ajuda a ter harmonia interior e exterior e isso reflete-se em todas as áreas da sua vida. No entanto, esta é ainda uma realidade muito escassa, porque a maioria das crianças passa por sentimentos de raiva, frustração, perdas, abandono ou outras.

A criança teve uma infância marcada de deficiências e negligências do tipo:

  1. Emocional – em que os seus pais/educadores não mostravam interesse nas necessidades emocionais de amor, apoio, proteção, segurança e orientação da criança. A criança sentia, muitas vezes, que não tinha atenção, que não podia expressar as suas emoções ou, quando as expressava, era, de alguma forma, ‘condenada’. Tudo isto gera no adulto:
  • Baixa autoestima e falta de merecimento.
  • Ignorar as suas necessidades emocionais ou dos demais.
  • Aprender a reprimir as emoções.
  • Incapacidade de ouvir, falar, aceitar ou lidar com as suas emoções.
  • Depressão, ansiedade.
  1. Psicológico – neste campo de negligência temos pais ou educadores que não conseguiam ouvir a criança. Eram pais tóxicos. O adulto desenvolve sintomas como:
  • Baixa autoestima, mas com necessidade de ridicularizar os outros, julgar, autocriticar.
  • Ter grandes expetativas nas pessoas a quem cria ligação emocional.
  • Ignorar as pessoas como forma de defesa emocional.
  • Ser rejeitado ou humilhado por terceiros ou fazer o mesmo a terceiros.
  • Desenvolver raiva profunda pela revolta gerada na infância.
  • Incapacidade de amar a si mesmo.
  • Vícios e neuroses que criam sensação de controlo e segurança dentro da sua vida.
  • Dificuldade em manter relacionamentos saudáveis, de respeito e amor.
  1. Físico – sendo este um nível fundamental da segurança básica e física da criança, a nutrição é um dos elementos intrínsecos no relacionamento amoroso, por isso a maioria das mães amamenta os seus filhos. Quando a criança não tem estas necessidades básicas, no estado adulto, desenvolve:
  • Baixa autoestima, como resultado da negligência física.
  • Distúrbios alimentares, como anorexia ou obesidade.
  • Pode, eventualmente, desenvolver automutilação ou destruição.
  • Comportamentos de risco (drogas, vícios).
  • Disfunção sexual.

É muito importante percebermos que a origem dos problemas está nas emoções geradas e criadas na infância. Do ponto de vista da criança, as crenças que desenvolveu e experienciou, os padrões nos quais foi criada, tudo isso gera a personalidade da criança e manifesta-se no estado adulto.

A Terapia com a Criança Interior

A Terapia com a Criança Interior exige tempo e disponibilidade para ir sentindo, observando e transformando, a par e passo, as nossas emoções e crenças e isso cria transformações profundas na nossa vida.

Os benefícios desta terapia:

  • Consciência de si mesmo.
  • Consciência da origem de padrões emocionais e da sua vida.
  • Maior criatividade e concentração.
  • Desenvolvimento de aceitação, perdão e amor-próprio.
  • Amizades e relacionamentos saudáveis e equilibrados.
  • Capacidade de concretizar objetivos.

Nos meus estudos e experiência, testemunhei as etapas de reconectar e nutrir a criança interior em mim mesma e com terceiros, com profundas mudanças interiores e de vida que perduram.

É muito importante perceber que a nossa mente cria mecanismos de resistência à mudança e aos processos de transformação e cura. Conscientes disso e abertos a fazer essa ligação ao seu interior, o paciente sabe que pode haver momentos em que a terapia é colocada em causa, com o objetivo de mascarar e retardar a entrada nessa fragilidade e infância dentro de si mas, ainda assim, a sua busca pela transformação e mudança é superior, assumindo o leme do comando da vida.

Exercício:

Convido-o a observar como se sentia quando era criança, o que gostava, o que não gostava, quais eram os seus passatempos e paixões, os seus amigos, os seus sonhos… obtenha uma imagem mais nítida possível dessa sua criança.

Na verdade, a Terapia Criança Interior envolve recuperar e tomar consciência das crenças que habitam no nosso subconsciente, que estão a gerar reações disfuncionais na nossa vida, como por exemplo, não conseguir ter relacionamentos felizes, nunca ter emprego fixo ou ter sempre empregos que não gosta, ter sido criado por pais divorciados e, por sua vez, ver-se na mesma situação, nunca ter dinheiro que chegue para o que deseja, ter problemas de saúde uns atrás dos outros, depressão, excesso de peso…

Com esta terapia, essa observação é feita de forma consciente pelo adulto que habita esse corpo e mente, permitindo-nos fazer uma reprogramação, de forma a poder viver uma vida mais gratificante e harmoniosa, em vez de viver em modo de reação a tudo o que lhe acontece, sem saber a causa. A recuperação do comando da sua vida está na consciência de si mesmo, das suas feridas emocionais que, na maioria das vezes, desconhece.

O processo de transformação

Criamos um espaço seguro, onde as manifestações das feridas emocionais podem ser trazidas à superfície consciente, integrando-as e honrando a sua aprendizagem, mas libertando a dor, sofrimento, raiva, medo, vergonha, culpa, seja qual for a emoção que estava reprimida dentro de si.

Não existem pessoas más, nem culpadas. Existem almas com feridas, mais ou menos, profundas, corações feridos e mentes muito revoltadas. É neste nível que vamos desenvolver todo o trabalho terapêutico.

Eu costumo brincar e dizer que somos detetives, que vamos descobrir por que motivo a pessoa é atraída sempre para o mesmo tipo de relacionamento, por que motivo é que a pessoa se sente sozinha, impotente, face aos desafios da vida, desesperada e, até, assustada.

Neste trabalho terapêutico, às vezes, as perguntas são desconfortáveis, incómodas, mas é nelas que se inicia um processo de transformação e cura saudável da pessoa, pois é neste momento que se questiona a dinâmica da vida e a ver outros campos de oportunidade que antes nos condicionava, pelas nossas crenças e feridas emocionais.

É muito importante que cada um possa despertar para a sua verdade interior, tomar consciência que não existe nada de errado consigo e perceber que é necessário começar a assumir responsabilidade e consciência nessa relação com o seu Eu Interior e com a sua vida disfuncional, de forma a criar as transformações necessárias para gerar equilíbrio, bem-estar e harmonia na vida.

 

Por Ana Tavares

www.anatavaresterapias.com

91 07 60 398

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